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  • Gabriela Moreira

Humano Arcaico

Atualizado: 4 de mar. de 2023

O corpo contra o chão. O peso da gravidade atuando contra os músculos, ossos, células. O silêncio cria o vazio de dentro para fora. A velocidade muda. O tempo desacelera. O que é o tempo? O que faz um minuto durar uma eternidade ou um minuto passar tão rápido que você já quer o próximo minuto?


Um ser humano a minha frente. Um circulo ao meu redor. Outras 3 duplas próximas a mim, se movimentando. Me sinto em meu próprio corpo. Habito cada célula. Isso é estranho para mim, habitar meu corpo. A maior parte do tempo é como se estivesse em uma estação de trem e cada trem que passa eu coloco uma parte do meu corpo. Em um, eu coloco meu coração. Em outro meus ouvidos, em outro meus braços. Os trens vão em diferentes direções e quando me dou conta, minha presença está completamente fragmentada. Não restou mais nada para este corpo. Para o aqui e agora. O tempo virou eternidade.


De frente para esse ser humano, entre os segundos que se passam, algo está diferente. Nesse exato momento, não entro cor partes de mim em diferentes trens. Estou aqui. Inteira. Estou no agora. Presente. Sinto as células do meu corpo vibrarem. Vividamente, sinto-me conectada comigo mesma. Como se estivesse plugado minha atenção dentro do meu próprio corpo, no meu centro. Consigo sentir minha respiração. Consigo sentir esse peso da gravidade. Consigo sentir os sutis sons. Sinto o gosto que tem minha língua, ouço o som do meu próprio coração. Sinto o toque dos meus pelos na minha pele. Vejo os cílios dos meus olhos em um breve piscar. Uau. Estou aqui. Viva. Vida pulsando em todas as direções.


Fecho meus pulsos. Estou pronta. Minha dupla fecha os pulsos ao mesmo tempo. Olhamos nos olhos uns dos outros. Nos seus olhos experencio Amor. Como no verde da mata, me sinto Gaia. Punhos fechamos, batemos nossas mãos. Selamos um compromisso: 'eu me conecto comigo, eu me conecto com você', 'eu não me machuco, eu não machuco você'. Com os punhos fechados ainda nos tocando, sinto a pele, o calor, a força. Eu empurro, ele empurra. Criamos uma nova gravidade: nossos corpos.


O jogo é coloca-lo com os ombros no chão por 3 segundos e vice-versa. Na primeira camada de percepção temos objetivos opostos, no entanto essa é só a plataforma, o palco. A cena que acontece nesse palco é: Conexão. Somos gravidade. O tempo deixa de existir. A mente está silêncio. É só o aqui e agora. Nos movemos. Cambalhotas, giros. Dançamos. Lutamos. A força e o cuidado, contração e a expansão, lento, rápido. Sem nenhuma técnica de movimento. Apenas ser. Instinto (e essa palavra pode ter várias conotações adicionais, como violência, agressividade e o que mais vier na sua tela mental. Aqui uso Instinto como 'presença com o que é. Ser o que é desejado e necessário a cada momento').


Não faço ideia de quanto tempo ficamos naquela experiência. Tudo que percebia era o suor nos nossos corpos, as células vibrando, o estado de presença, de fluxo, conexão, êxtase.


O facilitador pede para aos poucos caminhar para o ritual final: Apreciação. Me aproximo da minha dupla. Sorrimos e choramos ao mesmo tempo. A comunicação para além das palavras. Nos abraçamos. Apreciamos uns aos outros sem uma palavra falada. Através da intenção, das mãos, dos olhos, do corpo, ele aprecia minha curiosidade durante aquela experiência, o cuidado, a diversão e o estado de abertura e presença. Eu aprecio a capacidade dele de propor e escutar o corpo, a força, a curiosidade pelo próximo movimento, a navegação no desconhecido. Nos despedimos. Voltamos ao grande círculo.


PlayFight. Essa foi uma das experiências que vivenciei e que aqui tentei transpor em palavras. Algo que atravessou meu ser e me marcou profundamente porque eu pude mergulhar, de fato, na realidade experiencial. Não estava no reino das palavras. 100% não verbal. Eu nunca imaginei que fosse possível ter esse nível de conexão com um ser humano do sexo oposto sem qualquer tipo de intenção sexual ou manipulação ou invasão acontecendo.


Nessa imersão de PlayFight que participei em Dezembro, na Itália, ficou evidente como ao longo dos anos na cultura moderna, eu aprendi a me desconectar do meu corpo físico, a me desconectar do instinto. Do ser animal em mim. Como aprendi que o corpo é sujo, que o contato é perigoso, que o toque é pecado. Contato físico virou commoditie. O toque se transformou em sinônimo de sexo, de interesse, de sedução, de pecado.


O mais arcaico, natural e puro do ser humano foi distorcido, enterrado, desvalorizado, marginalizado. Olhar nos olhos uns dos outros, abraçar, escutar, demonstrar afeto, expressa, mover o corpo. Onde está a humanidade? Onde está o arcaico e animal do ser humano (pode até parecer paradoxal em um primeiro momento).


Usar força e contato corpo a corpo para criar intimidade não sexual é na maior parte das vezes visto como estranho. Até mesmo em práticas orientadas pelo corpo físico e mais mente aberta, como o yoga, meditação e dança não é fácil encontrar espaços onde a luta junto ao afeto é bem vinda e praticada. Até mesmo crianças, que naturalmente usam a brincadeira/luta com os corpos para desenvolver consciência corporal, explorar limites, delimitar limites e respeitar o limite dos outros são proibidas de fazerem.


Já procurei diversas práticas corporais em busca de me conectar mais com meu próprio corpo e com outras pessoas. Nessas experimentações, dentro do yoga, lutas marciais, dança, futebol, natação, frisbee, vôlei comecei a perceber o quanto facilmente era seduzida por técnica. Como fazer? Qual técnica usar para obter um melhor resultado? Acreditei por muito tempo que a porta para ter uma melhor experiência era ter mais técnica, mais conhecimento (em diferentes áreas da minha vida). Ter melhor resultado com que propósito?


Muito frequentemente não estamos dispostos a aprender com a própria vida, com a própria experiência. Bloqueamos o instinto, a conexão. O instinto e a conexão já estão aqui, sempre estiveram. No entanto, colocamos blocos com o propósito de sobreviver durante nossa infância (reatividade, confusão inconsciência, negação, ressentimento...). E muitas vezes tentamos 'resolver' isso com mais técnicas, mais conceitos, mais falação, mais mente.


Contudo, técnicas despersonalizam. Técnica transforma a vida em negócio, o corpo em ferramenta, pessoas em mecânicos ou operadores de máquinas. O uso de técnicas não ajuda a acordar uma pessoa dormente, pelo contrário, reforça os princípios que a faz dormir. O principal desafio é reentrar em contato com as estratégias de sobrevivência para que ela deixe de ser o fator governante autônomo em nosso funcionamento, momento a momento.


Uma das formas mais efetivas que vivenciei até agora de fazer isso é através da realidade experiencial. É através do instinto, da intuição, do corpo, do sentir.


Você não segue o instinto com a mente. Seguir o instinto não é uma questão de ver placas a sua frente e saber para onde ir. Seguir o instinto significa 'ser o que é desejado e necessário a cada momento', isso é estar conectado com a realidade. É sobre diminuir a espessura da parede entre você e a realidade, entre você e o outro. Isso é o que pude experenciar nesse PlayFight.


O PlayFight é uma prática física não verbal que integra corpo físico, mental, emocional e energético e cria um container seguro, para através do jogo e do movimento, experenciar conexão consigo e com o outro. E é nessa experimentação de conexão entre si e o outro, enquanto cada um tem objetivos opostos, temos a oportunidade de experimentar, no corpo, os blocos de sobrevivência que entram nesse caminho. A partir disso, há a possibilidade de fazer contato com esses blocos, sentir a dor e se re-conectar.


Para saber mais sobre essa prática, acesse www.playfight.org. E se você não quer saber, mas quer experimentar, deixo o convite para os próximos círculos que vou facilitar no Brasil:


  • 5 de Março em São Paulo, Vila Mariana

  • 12 de Março em São Paulo, Ibirapuera

  • 19 de Março em Florianópolis

  • 15 de Abril em São Paulo, Quant Café

  • 23 de Abril em Goiânia



Para se inscrever, me envia uma mensagem aqui.


Com Amor e Aventura, Florescedora da Essência Gabriela

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